Águas de Lastro 2012
I
Entre as
duras margens de dois pontos de evasão, vejo a vida zarpar - como um paquete
nas águas doces do rio - rumo ao destino final.
As estradas, que deliberadamente rasgaram a natureza, ficam perdidas na
partida e apenas a linha do comboio liga os lugares - à medida que sorvo a
paisagem. Sorvo-a, porque sinto que não mais a verei. Asseguro que a absorverei
com o olhar, sem negligenciar a panóplia de recordações contraditórias que
deglutirei nesse devaneio.
Navegando, as figuras
multicolores no cais, transportam cargas de vidas inteiras. É um carrega e
descarrega. Um entra e sai, de vagas memórias, nos vagões repletos onde se
recolhem os pertences dos passageiros.
Em linha recta, sem caminhos
estreitos nem buracos nem lombas, barcaças auxiliam no desembarcar longo e
demorado dos que chegam, mal me vou.
Navegar, largar o porto, é
ver nitidamente o que fica para trás. Deste promontório flutuante, desafiador
dos mares, tenho uma visão transparente, impoluta, do barulho incessante do
passado, filtrado agora pelo silêncio da realidade presente.
Há quem parta comigo. Há os
que gozam o primeiro dia de férias. Há os que buscam novos horizontes, depois
da paisagem esgotada do território nacional. Há os que regressam depois de uma
diáspora forçada. Há muita gente - para além de mim - que fujo de mim própria.
O porto ficou para trás. Um
rebocador conduz outro navio barra dentro. Talvez cheio de pessoas com
histórias semelhantes às que comigo estão. O convés vai ficando vazio. Todos
procuram o camarote para arrumar os pertences.
Eu continuo colada às amarras
do olhar, como se não quisesse perder pitada do que deixo para trás. O rasto de
espuma, largado pelo navio, assemelha-se ao lastro da minha existência. É como
se o borbulhar constante não significasse vida, mas antes destino em plena
ebulição.
Olho, maquinalmente, para o
lado e vejo uma figura igual à que me ficou na retina quando o barco zarpou.
Carrega no semblante uma cicatriz medonha. Uma espécie de estigma, que assusta
quem passa. A tez é pálida, macilenta. Os lábios são o exemplo fiel da cianose.
E o olhar... o olhar está morto. Jaz na face já cadáver.
Não é física a cicatriz. Não
é, não senhor. No entanto, marca-lhe o rosto por inteiro. O orgulho aparece-lhe
agora despido de toda a arrogância, mas também de valores. Caminha de tal modo
absorta que até o velho passadiço - estendido qual carpete suplicando que o
pise - parece revelar segredos obscuros e resguardados numa casa encantada de
bonecas à qual não liga, rigorosamente, nada. Procura, num silêncio que lhe
dói, fugas secretas por entre a paisagem nua que - diante dos olhos - a faz
sentir, ainda mais, insignificante.
As folhas caídas, pousadas no
tapete da sua natureza, ressuscitam e regressam aos troncos, temendo que o
olhar seja de escárnio, face à nudez imposta durante o rigor do Inverno da
vida. E assim, esta figura continua a sua marcha rumo à decadência, ainda que
surjam breves vislumbres de Primavera.
E - por ser tão semelhante
àqueloutra que ficou para trás - esqueço, por um segundo, a minha tão
importante introspecção e decido que quero saber o que conta aquele olhar
vazio. O que dizem as rugas sulcadas no rosto. Peço à mais vincada, à que lhe
divide a testa na horizontal, que me conte a sua história.
E ela prontamente começa a
narrar, como se sentisse uma necessidade premente de falar por falar. Diz-me
que se chama Ruga da Solidão. Nasceu há muitos anos, depois de filhos criados e
marido falecido. É a irmã mais nova de outras que vincam aquele rosto.
A da Preocupação, a do Cansaço,
a da Doença e da outra - interrompida a espaços - a da Fome. Todas estão
devotamente marcadas na face mirrada como se tivessem sido cravadas a fogo.
Como se ali, naquele pequeno pedaço de corpo, estivesse escrita uma vida.
A Solidão continua a contar-me
a sua história:
O marido de Angelina falecera
há cerca de oito anos - que já não se lembrava bem - e a vida começara a morrer-lhe.
Até então, não tinha sentido a falta dos filhos, emigrados no estrangeiro. Mas,
depois, depois quando dera de caras com o Júlio - que Deus o tenha - muito
quietinho, boca aberta, olhos arregalados, morto na cama...
Fora numa manhã fria e
chuvosa de um mês de Inverno. Agora também não conseguia dizer ao certo qual.
Mas lembrava-se que chovia e zimbrava na janela que Deus o dava. Chorara junto
dele. Agarrara-lhe as mãos entre as suas, como se quisesse prendê-lo, ali, a
si.
Ficou dois dias e duas noites
deitada ao lado do velho Júlio. Depois, depois a vizinha do lado estranhou a
ausência de barulho. Do pouco que fazia na cozinha, que era paredes meias com a
sua. Chamou os bombeiros que lho levaram, confirmado o óbito. Tiveram que a
agarrar, pois quisera impedi-los com quantas forças tinha.
- E ganhei forças. Parecia
uma moçoila com o sangue na guelra. Mas levaram-mo e fiquei só.
Os filhos vieram para o
funeral. Depois de chorado o pai - que estava, por fim, a descansar - que tinha
cumprido o desejo de Deus, que assim o quisera - deixaram algum dinheiro e
partiram.
Insistiram para que fosse com
eles, mas ela não conhecia ninguém. Os filhos trabalhavam de sol a sol. E as
línguas? Se já nem os netos a conseguiam entender... não! Ficava ali, até que o
Todo-poderoso quisesse.
E agora?
Agora, Ele queria que
partisse. Que regressasse à terra onde nascera porque sempre aprendera que
Terra era e, à Terra, iria voltar...
As rugas da Fome, da Doença e
do Cansaço parecem ter inveja do desabafo da outra e mostram-se ainda mais
franzidas para que lhes dê atenção...
A Fome salta e diz que a
Doença não é apenas fruto dos quase noventa anos de idade. É causada por si.
Trata-se de uma situação inerentemente psico-biológica e social.
O modo como Angelina passara
a ver o mundo não divergia da forma como tantos outros, da sua idade e mais
novos, o encaravam. O desaparecimento dos cônjuges influenciava as capacidades
e a noção de auto-estima e de auto-imagem que tinham.
A terceira idade deveria
chamar-se a última. É uma espécie de montra em que se vê o fluir do tempo em
direcção à morte. A vitrina já não é um pólo de interesse por uma saia ou blusa.
É o espelho do isolamento, em que a única companhia é a imagem reflectida da
dependência dos outros a todos os níveis e da inutilidade, associada à falta
de objectivos.
A privação, escondia-a
Angelina. Já as rugas, as rugas estavam ali para quem as quisesse ver. Para
quem se quisesse deter por um segundo e olhar, vendo, aquele rosto marcado de
tristeza.
Não queria fazer mal à
velhota, uma mulher decidida e trabalhadora, mas o facto de existir fazia com
que a doença avançasse, como um conquistador indesejado, sobre a sua triste
vida.
Sabia perfeitamente que ela
se dividia entre si e a Doença. Sabia que se desviava do caminho da mercearia
em busca da farmácia... e nada podia fazer.
Ainda se lembra de um dia em
que, depois de muito pensar, bebera um copo de água com açúcar para enganar a
fraqueza pois, dessa vez, os medicamentos tinham que ser aviados.
Tinha um rol imenso de
dívidas, tão grande na farmácia como na mercearia. É que os donos já a
conheciam há muito e sabiam que, mal recebesse a mísera pensão, pagaria. E
pagava. E o rol no caderno dos fiados voltava à estaca zero. No entanto,
rapidamente, voltaria a crescer e era sempre assim. Não havia meio de acabar
com as prestações, como lhe chamava.
Escolhia sempre uma hora
certa do dia, em que a mercearia ou a farmácia estivessem vazias, para pagar as
contas. Não gostava que soubessem que levava fiado.
No tempo do Júlio, conseguira
ter tudo em dia. Mas agora, que apenas recebia a pensão de viuvez, não tinha
como resolver as contas que a vida lhe apresentava.
As perdas, sofridas em nova,
tinham-na marcado. No entanto, a morte de vizinhos, amigos e familiares, nesta
profícua idade, aumentavam-lhe a solidão. Faziam com que uma negra ansiedade a
invadisse, ante a proximidade da sua própria morte:
- Porque não me levarás,
também, meu Deus?
Por seu turno, a Doença quer
testemunhar e, muito afoita, vai dizendo que nada pode contra o processo de
envelhecimento. Que não tem culpa de ser apenas uma característica da terceira
idade e que, por ela, Angelina nem iria à farmácia, pois destruía-lhe a vida...
Quantas vezes pensara que
estava definitivamente instalada naquele corpo já cansado, perfeito para que se
desenvolvesse, e a pobre mulher conseguia tirar ao caldo para comprar mais um
remédio... tem tido uma vida difícil a Doença.
Disfarçava-se de hipertensão,
de diabetes, de osteoporose, de reumático, de anemia... Tentava sobreviver a
todo o custo e, mal via uma brecha de hipótese, instalava-se confortavelmente,
esperando que a idosa não tivesse forças para chamar o médico ou ir ao
hospital. Mas Angelina era rija e corajosa. Que azar!
A Preocupação aproveita uma
pausa no discurso da Doença e lá vai dizendo que foi das primeiras a surgir. É
a mais velha de todas. Aparecera-lhe por altura do nascimento do primeiro
filho, quando a Felicidade ainda não lhe permitia altos-relevos no rosto.
Todavia, os filhos foram-lhe
nascendo e contava com seis. Todos rapazes. As primeiras doenças, os primeiros
amores e desamores, os cursos superiores – que fizera questão de proporcionar a
todos – levaram ao aparecimento da primeira de muitas rugas que lhe ensombravam
a fronte e lhe tornavam os olhos mais pequenos.
Na altura, trabalhava a dias,
em casa de senhoras finas. Muitas vezes, quando chegava ao aconchego do lar, já
todos dormiam. O jantar era da responsabilidade do pai que entrava cansado, mas
muito mais cedo do que Angelina.
Júlio trabalhava na
construção civil desde que se mudaram para o Continente em busca de uma vida
melhor. Na ilha era pescador e o que ganhava não chegava para sustentar a
família.
Saía de casa antes de o sol
nascer e quando chegava, já ele há muito se tinha posto. Mas, como a mulher
aproveitava todas as horas que podia para limpar mais uma casa, era ele quem -
à noite - tratava dos miúdos.
E, assim, todos cresceram. As
roupas dos mais velhos passavam para os mais novos, os livros passavam de mão
em mão e havia sempre uma sopa consistente à mesa, porque o conduto era mais
fraco.
Angelina nunca se preocupara
com contratos, nem com descontos para a Segurança Social, nem em saber se era -
ou não - de Lei estar protegida.
Naquele tempo, trabalhava-se
e pronto. Vivia-se como se podia e pronto. Por isso, quando já tinha os filhos
criados e cursados, decidiu pedir a reforma. Não tinha descontos. Não tinha
direito. Para o Estado, esta senhora nunca tinha trabalhado. Nunca limpara a
casa de ninguém. Nunca chegara a casa quando já todos dormiam. Tivera uma vida
regalada, entre quatro paredes, durante toda a existência.
E foi durante estes meses, em
que tentou aceder aos seus direitos de cidadã, que a curva da Preocupação se
agravou e que todas as outras a atacaram em catadupa.
O Júlio tinha conseguido a
reforma. Todavia, como não tinha descontos sobre todos os anos em que tinha
trabalhado, ficou-se por uma miséria que apenas, somada à pensão que lhe
concederam, dava para se aguentarem. Porque foi mesmo assim: aguentaram-se.
Naquele dia em que deu com
ele imóvel na cama, a Preocupação aliou-se definitivamente à Doença, à Fome e,
sobretudo, à Solidão.
Talvez se os filhos
estivessem por perto. Se lhes sentisse a preocupação, a Solidão fosse menor.
Mas a falta de uma mão amiga, de uma palavra de conforto, aquela sensação de
abandono, mais não fizeram do que levá-la a sentir-se isolada de tudo e de
todos. Sentia que a dignidade, que tanto prezava, desaparecera e que já não era
útil a ninguém.
A Tristeza e a Solidão uniram
forças de modo a que a única coisa que desejava com toda a genica era a morte.
Partiria. Iria para junto do
seu velho. Para a sua ilha da saudade. A pouca energia que lhe restara, usara-a
para tratar da passagem. Saldou todas as dívidas e, com o dinheiro deixado
pelos filhos, comprou o bilhete de regresso ao ponto de partida. Chegaria à
ilha e depois, certamente, ao céu.
Hoje parte. Deixa para trás
uma história feita de capítulos enrugados e espera poder encontrar-se com o
marido.
Pensa - porque sempre foi
mulher de Fé - que ele está à sua espera no Céu azul que paira sobre a ilha
onde nasceram. Juntos, percorrerão a eternidade, livres de todos os escolhos
que a vida terrena lhes foi deixando pelo caminho.
E, concentrando-me no todo
que é a face, vejo-a sorrir. Um sorriso tímido de quem me adivinha os
pensamentos. E não resisto a uma interpelação:
- De partida?
Pergunta estúpida a minha.
Mas é, sem dúvida, a maneira mais fácil de encetar uma conversa com quem não
se conhece. Partir do que é óbvio.
- Diga?
A voz é tão trémula quanto as
suas mãos. Faz-me perceber que a amargura não se limita ao olhar. Vem-lhe das
vísceras, de um profundo indescritível.
- Perguntava-lhe se está de
partida...
- Pois, minha menina. É a
vida. Vim neste barco em busca de esperança e parto em busca do fim: na minha
terra, no meio da minha gente.
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