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A mostrar mensagens de março, 2020

escondido

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o escondido é bom tipo. o escondido protege-se. o escondido engana-se, escondidamente. o escondido, escondeu-se. o escondido não existe.

no silêncio do nu

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no silêncio, sinto-me. sentindo-me não é de ouro, o silêncio. não tem preço. já o ouro tem. então, tenho para mim que é quando me calo que enriqueço. que tudo paira, que tudo se diz silêncio e calma, que tudo se esclarece e enaltece e se dilui e se engrandece de novo… silêncio: é de outono, é de inverno, é de primavera e chega-me sempre verão, ainda que o barulho me faça tiritar. sinto que estou na estação do silêncio, do teu, do meu, do nosso. do maturar, do apurar e reflorescer e amar. o silêncio devolve-me paz, amor e certezas que não queres e não quero, mas queremos.  fiquemos, pois, em silêncio… é que queria ter a certeza de ser compreendida. sabia perfeitamente que nada se comungava entre incompreensões. mas qualquer tentativa - de tornar comum aquilo que apenas um lado entende - falecia vítima de ruído. e por isso dizia que as palavras não eram tão perfeitas quanto os diamantes brutos. esses são o que são, enquanto que a palavra é subtil e redonda. é difícil ultr...

sobremesa

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hoje comi palavras. digeri-as. deixei que fizessem o percurso normal da digestão. arranharam-me toda: glote e epiglote.  engoli-as com a mesma determinação com que fumo mais um cigarro que morre. que me alimentem as que o são – palavras - e que sigam tubo abaixo todas as que, de profundas, apenas têm a sonoridade.  palavras que se dizem nuas acompanhadas de gestos que se não sentem. e, então, como ainda mais palavras e deixo que todas as que me não tocam se façam lixo. acabo a digestão. e alimentam-me as poucas que restaram.

inverno[-me]

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que culpa tenho se não caibo nas quatro paredes que me confinam?  que culpa tenho se a amargura e a distância fazem parte do caminho a percorrer?  nenhuma. o mundo é bom. a vida é boa. é amor por todo o lado. perfeito. soberbo. não há fome – e se há, passei por ela e não vi, estava cega de fartura. mas isso, isso é natural em mim. é que agora descobri o umbigo, um ponto quase perfeitinho. pronto, reconheço que me encontro numa fase humilde, sem tensões, chamo-lhe, pomposamente, dignidade.   sem maldade nem perversão. vou para o céu. vou, sim senhor.  e a partir de agora entro na fase do amo-me. olho o espelho e amo-me, oiço a minha voz e tremo. reconheço-me boa e fico embevecida. egocentrismo? amor-próprio?   egoísmo? seja! estou em mim, comigo. e repito-me vezes sem conta que o respeitinho é bonito e eu gosto. definir isto, dizer em abono ou em contrário, pouco me importa. porque não importa. o respeito é o respeito, o amor é o amor e mais nad...
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Balanço Nasci há muitos sóis. Sim, havia sol. Portanto, deve ter sido numa altura correspondente ao que decidiram chamar-se verão. Lembro-me perfeitamente das luzes que me feriram o olhar, das vozes estranhas em redor e de ruídos agressivos nada agradáveis aos ouvidos de quem vinha do paraíso.  Encontrei, finalmente, uma pele que me agradou. Suave, calmante. foi quando a minha mãe encostou o rosto dela ao meu e me aconchegou no seu peito. Tudo parou. Todos os ruídos se silenciaram. Todas as vozes sumiram. Apenas o cheiro daquela pele me existia. Passaram-se vários sóis, muitas nuvens e ventos e chuvas e de novo sóis. Havia claro e escuro também. Havia objectos enormes que foram diminuindo de tamanho à medida que eu crescia. Havia inocência, felicidade e sonho. E os sóis foram passando, apagados aqui e ali por nuvens mais ou menos carregadas. Passaram. E era sempre assim: sol, nuvens, vento, chuva e sol. Flores e aves. Folhas no chão. Troadas de luz no céu. Podia resum...