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Águas de Lastro 2012

  I Entre as duras margens de dois pontos de evasão, vejo a vida zarpar - como um paquete nas águas doces do rio - rumo ao destino final.      As estradas, que deliberadamente rasgaram a natureza, ficam perdidas na partida e apenas a linha do comboio liga os lugares - à medida que sorvo a paisagem. Sorvo-a, porque sinto que não mais a verei. Asseguro que a absorverei com o olhar, sem negligenciar a panóplia de recordações contraditórias que deglutirei nesse deva­neio. Navegando, as figuras multicolores no cais, transportam cargas de vidas inteiras. É um carrega e descarrega. Um entra e sai, de vagas memórias, nos vagões repletos onde se recolhem os pertences dos passageiros. Em linha recta, sem caminhos estreitos nem buracos nem lombas, barcaças auxiliam no desembarcar longo e demorado dos que chegam, mal me vou. Navegar, largar o porto, é ver nitidamente o que fica para trás. Deste pro­montório flutuante, desafiador dos mares, tenho uma visão transpar...

As Vozes 2011 Chiado Editora

    Durante cerca de três meses, vivo no hospital. A minha mãe vai ver-me todos os dias como se de um ritual sagrado se trate . Depois da saída do coma, não permite que ingira a comida do hospital. Todos os dias me leva as refeições diárias. Eu sei que é muito trabalho para ela, que troca os horários do trabalho, não almoça, para poder estar comigo mais tempo. Está mais magra e, embora sorria mais agora do que durante dez anos, tenho medo que se esgote e adoeça por minha causa. Agradeço ao meu pai ter-me devolvido a força de viver. A minha mãe agradece todos os dias a Deus por eu estar de volta. E eu agradeço por ela ter voltado a ser a mãe que me trouxe no ventre e que espalhava alegria por onde passava. Sei que o pai não é estranho a nada disto. Sei que nunca nos abandonou e nunca o fará. Por isso encaro a vida com coragem e vontade de ser feliz. Renasço do coma em que morei toda a vida, embora apenas três meses no hospital. Sei hoje que os duros golpes podem des...

in AS VOZES 2011 Chiado Editora

  Durante cerca de três meses, vivo no hospital. A minha mãe vai ver-me todos os dias como se de um ritual sagrado se trate. Depois da saída do coma, não permite que ingira a comida do hospital. Todos os dias me leva as refeições diárias. Eu sei que é muito trabalho para ela, que troca os horários do trabalho, não almoça, para poder estar comigo mais tempo. Está mais magra e, embora sorria mais agora do que durante dez anos, tenho medo que se esgote e adoeça por minha causa. Agradeço ao meu pai ter-me devolvido a força de viver. A minha mãe agradece todos os dias a Deus por eu estar de volta. E eu agradeço por ela ter voltado a ser a mãe que me trouxe no ventre e que espalhava alegria por onde passava. Sei que o pai não é estranho a nada disto. Sei que nunca nos abandonou e nunca o fará. Por isso encaro a vida com coragem e vontade de ser feliz. Renasço do coma em que morei toda a vida, embora apenas três meses no hospital. Sei hoje que os duros golpes podem destruir exis...

escondido

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o escondido é bom tipo. o escondido protege-se. o escondido engana-se, escondidamente. o escondido, escondeu-se. o escondido não existe.

no silêncio do nu

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no silêncio, sinto-me. sentindo-me não é de ouro, o silêncio. não tem preço. já o ouro tem. então, tenho para mim que é quando me calo que enriqueço. que tudo paira, que tudo se diz silêncio e calma, que tudo se esclarece e enaltece e se dilui e se engrandece de novo… silêncio: é de outono, é de inverno, é de primavera e chega-me sempre verão, ainda que o barulho me faça tiritar. sinto que estou na estação do silêncio, do teu, do meu, do nosso. do maturar, do apurar e reflorescer e amar. o silêncio devolve-me paz, amor e certezas que não queres e não quero, mas queremos.  fiquemos, pois, em silêncio… é que queria ter a certeza de ser compreendida. sabia perfeitamente que nada se comungava entre incompreensões. mas qualquer tentativa - de tornar comum aquilo que apenas um lado entende - falecia vítima de ruído. e por isso dizia que as palavras não eram tão perfeitas quanto os diamantes brutos. esses são o que são, enquanto que a palavra é subtil e redonda. é difícil ultr...

sobremesa

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hoje comi palavras. digeri-as. deixei que fizessem o percurso normal da digestão. arranharam-me toda: glote e epiglote.  engoli-as com a mesma determinação com que fumo mais um cigarro que morre. que me alimentem as que o são – palavras - e que sigam tubo abaixo todas as que, de profundas, apenas têm a sonoridade.  palavras que se dizem nuas acompanhadas de gestos que se não sentem. e, então, como ainda mais palavras e deixo que todas as que me não tocam se façam lixo. acabo a digestão. e alimentam-me as poucas que restaram.

inverno[-me]

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que culpa tenho se não caibo nas quatro paredes que me confinam?  que culpa tenho se a amargura e a distância fazem parte do caminho a percorrer?  nenhuma. o mundo é bom. a vida é boa. é amor por todo o lado. perfeito. soberbo. não há fome – e se há, passei por ela e não vi, estava cega de fartura. mas isso, isso é natural em mim. é que agora descobri o umbigo, um ponto quase perfeitinho. pronto, reconheço que me encontro numa fase humilde, sem tensões, chamo-lhe, pomposamente, dignidade.   sem maldade nem perversão. vou para o céu. vou, sim senhor.  e a partir de agora entro na fase do amo-me. olho o espelho e amo-me, oiço a minha voz e tremo. reconheço-me boa e fico embevecida. egocentrismo? amor-próprio?   egoísmo? seja! estou em mim, comigo. e repito-me vezes sem conta que o respeitinho é bonito e eu gosto. definir isto, dizer em abono ou em contrário, pouco me importa. porque não importa. o respeito é o respeito, o amor é o amor e mais nad...