Águas de Lastro 2012
I Entre as duras margens de dois pontos de evasão, vejo a vida zarpar - como um paquete nas águas doces do rio - rumo ao destino final. As estradas, que deliberadamente rasgaram a natureza, ficam perdidas na partida e apenas a linha do comboio liga os lugares - à medida que sorvo a paisagem. Sorvo-a, porque sinto que não mais a verei. Asseguro que a absorverei com o olhar, sem negligenciar a panóplia de recordações contraditórias que deglutirei nesse devaneio. Navegando, as figuras multicolores no cais, transportam cargas de vidas inteiras. É um carrega e descarrega. Um entra e sai, de vagas memórias, nos vagões repletos onde se recolhem os pertences dos passageiros. Em linha recta, sem caminhos estreitos nem buracos nem lombas, barcaças auxiliam no desembarcar longo e demorado dos que chegam, mal me vou. Navegar, largar o porto, é ver nitidamente o que fica para trás. Deste promontório flutuante, desafiador dos mares, tenho uma visão transpar...