Balanço

Nasci há muitos sóis. Sim, havia sol. Portanto, deve ter sido numa altura correspondente ao que decidiram chamar-se verão. Lembro-me perfeitamente das luzes que me feriram o olhar, das vozes estranhas em redor e de ruídos agressivos nada agradáveis aos ouvidos de quem vinha do paraíso. 

Encontrei, finalmente, uma pele que me agradou. Suave, calmante. foi quando a minha mãe encostou o rosto dela ao meu e me aconchegou no seu peito. Tudo parou. Todos os ruídos se silenciaram. Todas as vozes sumiram. Apenas o cheiro daquela pele me existia. Passaram-se vários sóis, muitas nuvens e ventos e chuvas e de novo sóis. Havia claro e escuro também. Havia objectos enormes que foram diminuindo de tamanho à medida que eu crescia. Havia inocência, felicidade e sonho.

E os sóis foram passando, apagados aqui e ali por nuvens mais ou menos carregadas. Passaram. E era sempre assim: sol, nuvens, vento, chuva e sol. Flores e aves. Folhas no chão. Troadas de luz no céu. Podia resumir-me ao que a Terra me deu desde aquele dia soalheiro. Mas não pode ser. Nasci num dia 20, num mês de agosto, num ano de 1963, pela manhã. Era verão. Era o século XX. Era tempo. E o tempo passa e mede-se em segundos e anos. E comemoramos a passagem de mais um dia de uma forma muito mais especial do que a passagem de todos os outros dias de todos os outros anos. E o que é estranho é que esse dia tem – exactamente - vinte e quatro horas, como o que o precedeu e como o que virá. 

E o tempo… o tempo não passa de uma invenção que nos atormenta. Nasci há muitos sóis. Hoje, há raios envergonhados que entram pela janela. Não prometem aparecer amanhã. Talvez chova, talvez não. Feliz sol ou chuva ou vento ou brisa. Em tempo, diria: FELIZ DIA, FELIZ VIDA,
FELIZ ANO NOVO.

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