inverno[-me]


que culpa tenho se não caibo nas quatro paredes que me confinam? 

que culpa tenho se a amargura e a distância fazem parte do caminho a percorrer? 

nenhuma. o mundo é bom. a vida é boa. é amor por todo o lado. perfeito. soberbo.

não há fome – e se há, passei por ela e não vi, estava cega de fartura. mas isso, isso é natural em mim. é que agora descobri o umbigo, um ponto quase perfeitinho. pronto, reconheço que me encontro numa fase humilde, sem tensões, chamo-lhe, pomposamente, dignidade.  sem maldade nem perversão. vou para o céu. vou, sim senhor.

 e a partir de agora entro na fase do amo-me. olho o espelho e amo-me, oiço a minha voz e tremo. reconheço-me boa e fico embevecida. egocentrismo? amor-próprio?  egoísmo? seja! estou em mim, comigo. e repito-me vezes sem conta que o respeitinho é bonito e eu gosto. definir isto, dizer em abono ou em contrário, pouco me importa. porque não importa. o respeito é o respeito, o amor é o amor e mais nada: sem mais nem menos e nem a quantidade de porquês que daí se chegam à frente em biquinhos de pés. é assim e pronto. não tenho ilusões, porque as ilusões servem nada. 

sou imperfeita e gosto. começo mesmo a amar-me em toda a minha imperfeição. não há vitoriosos nesta guerra. não há desilusão nos sonhos tidos, não há dor apenas porque não há ferida e nem sangue. sou comandante de mim e livre do resto. 

Amo-me, declaro.não me esclareço. não me explico porque me sei incapaz de o fazer. encontro uma resposta célere para esta situação: eu nunca me declaro, vivo-me. E este viver [-me] liberta paradoxos a cada passo que me obrigo a dar: digo-me e logo me desdigo. não no que  interessa ou perturba os outros, mas no que me incomoda a mim. no que me enfada o rigor. então, sou mera frase - dita profunda e verdadeira - sem mácula, sem egocentrismos sem perspectivas limitadas. enalteço a vida pequena e esqueço-me de aterrar, porque me esqueci de levar comigo a própria sombra. fico agitada, quero questões pertinentes e respostas fundamentadas. e quero que a congruência do universo considere a minha luz, sem abalos nem incertezas. 

procuro redimensionar-me e esquecer o que me acontece fora. fora é onde me dói o que não devia. dentro, dentro fico mais eu e cada vez menos o que me influencia. aqui me fecho e me guardo. aqui me vejo e me resumo. aqui ninguém me toca. e este é o meu desafio. não me esclareço e nem me explico. Sei-me incapaz de o fazer, no peso da ironia [?].

tal como preciso de água, preciso do outro para ser, estar, pensar e viver. e, por muito que negue essa esperança de retorno [do que dou e preciso], a verdade é que o espero e o desejo – exactamente - na mesma medida. quando protejo, quero ser protegida, quando amo, quero ser amada, quando perdoo… e isso torna-me diferente de todos os que conheço. sou pessoa exigente. sou sentimentalmente materialista. 

quero a devolução do que pago na íntegra. sou eu, então, que conto. nessa altura, o outro [já] não tem assim tanto significado. a não ser, é evidente, que seja bom pagador. então, humilde, imagino-me um jardim. um lindo jardim onde as ervas daninhas não sobrevivem. onde cada um dos meus amores ou amigos é uma árvore, uma flor, um banco, um lago e eu, sempre a fonte. a partir desse momento, quero sombra, se refresquei; odores, se perfumei; descanso, se descansei… porque mereço e não me quero fonte seca.

entro no vazio de mim. inverno-me.  nem tudo é vazio, mas é por essa estrada que vou.  que prefiro ir. não sei se o caminho é de encontro ou perdição, mas arrisco. e arrisco apenas porque se trata do meu vazio. do que sou, do que fui do meu vazio. e é o tempo que me obriga a recolher, a visitar as cores diferentes das de marços passados. é que a primavera já lá vai… mas a consciência do que foi ficou-me. pouca importância me dou, olhando em volta. tenho consciência de que existe primavera depois de mim e do outono. inverno-me.



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