no silêncio do nu


no silêncio, sinto-me. sentindo-me não é de ouro, o silêncio. não tem preço. já o ouro tem. então, tenho para mim que é quando me calo que enriqueço. que tudo paira, que tudo se diz silêncio e calma, que tudo se esclarece e enaltece e se dilui e se engrandece de novo…

silêncio: é de outono, é de inverno, é de primavera e chega-me sempre verão, ainda que o barulho me faça tiritar. sinto que estou na estação do silêncio, do teu, do meu, do nosso. do maturar, do apurar e reflorescer e amar. o silêncio devolve-me paz, amor e certezas que não queres e não quero, mas queremos.

 fiquemos, pois, em silêncio… é que queria ter a certeza de ser compreendida. sabia perfeitamente que nada se comungava entre incompreensões. mas qualquer tentativa - de tornar comum aquilo que apenas um lado entende - falecia vítima de ruído. e por isso dizia que as palavras não eram tão perfeitas quanto os diamantes brutos. esses são o que são, enquanto que a palavra é subtil e redonda. é difícil ultrapassar a linguagem da emoção. devia ser criado um dicionário de fórmulas rígidas dedicado inteiramente à descodificação de sentires. mas, como não existe, e como não conseguia partilhar, quedou-se, muda. cerrou numa caixa todas as barreiras e proibiu e proibiu-se certezas. 

e o que é estar nu?

estar nu não é ficar desprovido de roupa. estar nu não é mostrar o corpo. estar nu é mostrar o que verdadeiramente nos diferencia dos outros. e esta nudez é uma espécie de impressão digital secreta. só ficamos nus connosco a sós e em ambiente propício. não raras vezes, ainda assim, temos algum pejo em olhar essa cruel nudez. e pode vir o psicanalista e o bruxo, pode vir o padre e o amigo.e essa nudez é aquilo a que se chama íntimo.

“eu estou posta a nu”. quantas e quantas vezes dizem - e ouvimos :

- “ eu sou um livro aberto”?

 muitas, por certo. mas na verdade, trata-se de um nu artístico e apreciado ( ou não) pelo outro. trata-se de um livro de difícil interpretação. linguagem rebuscada, simbolismos ambíguos... e estar nu é quase sempre impossível.

hoje fiz um exercício rápido, de cerca de quarenta minutos, sentada no carro - enquanto perdia o olhar no pára-brisas forrado a gotas de chuva miudinha. pronto, fiz uma viagem de trinta anos. Pensei que seria suficiente porque, daí para trás, o nu era de uma constância pueril. e imaginei a minha nudez à chuva, sem conflito de espécie alguma, até porque só estávamos as duas: eu e ela, a nudez, bem entendido. apesar de alguma oposição, ela foi-se revelando, muito devagar. a espaços, eu abanava a cabeça em sinal de negação. Era mentira o que me que me mostrava. e ela dizia que ou era a nu ou não era. que verdades em topless não eram consigo. e eu mandei-a dar uma volta. afinal, a vontade era minha e não me apeteciam verdades repelentes. não que eu seja puritana. nada disso. apenas não tinha uma vontade assim tão grande de me pôr a nu. 

e, no final de contas, o que é isso do nu? arte? exibição?  íntimo? alma? entrou em casa. olhou as pinturas periféricas. a vida fluía-lhe nas paredes mortas. não se tratava de amor e nem de estética. 

era apenas vida morta, passada. uma espécie de legado, de arte confessional. em algumas, figuras em destaque, noutras, vazios implacáveis com significado mais particular do que as tais figuras. algumas nuas, despojadas de si e do resto. uma espécie de nu pornográfico, sem associação a erotismo. Imagens privadas, portanto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Águas de Lastro 2012

As Vozes 2011 Chiado Editora