in AS VOZES 2011 Chiado Editora
Durante cerca de
três meses, vivo no hospital. A minha mãe vai ver-me todos os dias como se de
um ritual sagrado se trate.
Depois da saída
do coma, não permite que ingira a comida do hospital. Todos os dias me leva as
refeições diárias.
Eu sei que é
muito trabalho para ela, que troca os horários do trabalho, não almoça, para
poder estar comigo mais tempo. Está mais magra e, embora sorria mais agora do
que durante dez anos, tenho medo que se esgote e adoeça por minha causa.
Agradeço ao meu
pai ter-me devolvido a força de viver. A minha mãe agradece todos os dias a
Deus por eu estar de volta. E eu agradeço por ela ter voltado a ser a mãe que
me trouxe no ventre e que espalhava alegria por onde passava.
Sei que o pai
não é estranho a nada disto. Sei que nunca nos abandonou e nunca o fará. Por
isso encaro a vida com coragem e vontade de ser feliz. Renasço do coma em que
morei toda a vida, embora apenas três meses no hospital.
Sei hoje que os
duros golpes podem destruir existências, mas, dependendo dos corações, tudo
pode erguer-se e construir-se numa perspectiva infinita. Tenho uma meta
definida. Um plano infalível traçado. Enfrento timidamente os incidentes de
percurso. Não me matam, mas tranquilizam-me, no verdadeiro sentido anestésico
do termo. Sei que posso escolher entre várias trajectórias para chegar a
diversos caminhos e atingir lugares distintos.
Com extrema
cautela, examino a consciência e o que ela me revela transforma-se no mapa da
minha vida. Esta carta geográfica tem várias províncias e cidades, aparentemente
análogas em termos de importância.
Arranco em busca
do caminho ideal, entro pelo concelho da Curiosidade e consulto a composição do
território. Tem várias freguesias com imensos fogos, mas há um que me prende a
atenção: a Casa do Saber.
Para lá me
dirijo, entusiasmada com a possibilidade de poder integrar tão bela povoação.
No entanto, vários entraves se atravessam à minha passagem. Primeiro, antes de
entrar nesta zona, deverei passar pela comarca da Divisa.
Não é possível
entrar em Curiosidade sem autorização expressa de Divisa. Volto atrás e tento
obter o salvo-conduto.
A dificuldade
não me detém e, segura do que pretendo, sigo em frente.
Para obter uma
autorização de residência para a Curiosidade, devo ser portadora de uma
declaração da região do Trabalho ou, em substituição, da zona de Nascida em
Berço d’ Ouro.
Regresso a casa,
esgotada, e pergunto à consciência onde poderei arranjar os documentos. A
resposta é célere: na comarca do Trabalho. Adormeço, cansada, mas certa de que
nada - nem ninguém - me impedirá de realizar o meu caminho.
Acordo cedo e
motivada para a longa jornada que me espera. Chego, por fim, a um local muito
povoado, situado numa língua de terra estreita entre o rio do Desespero e o mar
da Desilusão.
Dirijo-me à Baía
da Desilusão porque a linha do horizonte me promete muito mais do que as terras
inóspitas do outro lado do rio e porque, não menos importante, as filas são
visivelmente mais pequenas.
Ao cabo de
longas horas de espera, recebo o minúsculo papel que, presumo, me dará acesso à
Curiosidade. Faço uma inversão de marcha e, alguns quilómetros depois, entro de
sorriso estampado no rosto na região desejada.
Ao fim de poucos
dias reconheço, contrafeita, que se trata de um local pouco apreciado e nada
popular. O entusiasmo com que parti é agora um misto de estranheza e de esforço
que faço para compreender a razão pela qual a Curiosidade é tão pouco
solicitada e inóspita.
Percebo então,
que ninguém quer e nem precisa de tarefas planeadas. Os atalhos que conduzem ao
Saber são difíceis de trilhar, por isso, o Bairro do Ócio é muito mais
interessante.
Do miradouro da
minha Curiosidade avisto a Praça Central do Lazer. Novos e velhos, homens e
mulheres olham uns para os outros enquanto se deliciam com uma bebida ou um
acepipe qualquer. Parece ser um dia típico neste território feliz da inércia e
da ignorância.
Decididamente,
vou investigar o Plano Director Municipal e verificar as minhas possibilidades
de prospecção. Os meus olhos detêm-se no edifício do Saber.
Sigo as
indicações e, logo na recepção, surge um novo obstáculo: a entrada é gratuita,
mas tenho que adquirir os materiais obrigatórios. Pergunto o preço e a resposta
deixa-me perplexa. Nem que eu conseguisse três ocupações na autarquia do
Trabalho ganharia para pagar a frequência do Saber.
Ingenuamente,
calculei que a vontade seria mais do que suficiente para ter um livre-trânsito.
Frustrada e infeliz, decido que alcançarei o objectivo a que me propus. Hei-de
percorrer países, cidades e vilas, bairros e edifícios que me contem histórias
de graça e que estimulem o meu interesse.
Agora,
na diáspora do intelecto do meu país, sinto-o demasiado pobre. A derrocada de
gerações de saberes é um sinal de declínio das mentalidades e das gentes.
Significa que arrogância do Ócio, em conluio com a evocação de um materialismo
descontrolado, venceu a pequena assoalhada do Património Cultural, situada na
Casa do Saber.
Foi
por erros cometidos por vários - e nunca assumido por nenhuns - que a
lengalenga de “o que é fácil é que é bom” se sobrepôs ao território de “ o Saber
não ocupa lugar”. Os habitantes da Ignorância são maioritariamente indígenas
cujas competências se situam abaixo do limiar do simples cálculo mental.
Dominam todas as técnicas do choro e carpem por casas e alimentos subsidiados.
Por
eles intercedem os que vêem mais além – e não querem sofrer de miopia. Para
estes, que formam uma espécie de Sociedade dos Espertos, é sempre uma honra
defender os interesses dos Pobres... de Espírito.
Na
minha busca contínua e incessante, descobri que noutros pontos do mapa do
universo existem regiões notáveis - as Bibliotecas - com habitantes riquíssimos
– os Livros. Li vários, li muitos, reli outros e insisto a cada passo que - do
todo que aprendi – ainda me falta saber do resto. Nunca fui boa a decorar,
sempre preferi entender. A minha capital Selectiva passa por aí.
Saber
usar o remédio é muito melhor do que ter a doença. Não há, portanto, mestre que
me ensine nem doutor que me amestre se eu não estiver preparada para mergulhar
sem medo no Oceano profundo da Curiosidade.
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